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Garçom, uma memória e a conta

Nenhuma memória.
Esse lugar onde moram os desmemoriados não  é bom.  Olha para trás, o que você vê? Nada.  E o almoço? Mas o que foi que eu almocei ontem? Neurônios em silêncio proposital. Legumes? Um assado? Galinha ao molho pardo?  É  a beira do precipício. Macarrão com molho de tomate de lata? Quinoa, como os astronautas? Petit Poá?  Nenhuma pista. Pânico.

Nenhuma memória. É como um bilhete da loteria premiado. Eu almocei na Dinamarca, melhor restaurante do mundo, durante quatro horas. Almocei ali na beira da praia, lagosta do pescador, pés afundados na areia, você dizendo eu te amo só com os olhos, água morna da Bahia. Almocei? Sim, no topo da Terra, na beira do vulcão, comida assada no calor do mundo, nenhuma dúvida pela frente. E a refeição? Num teve. Passamos o dia na cama, tão satisfeitos da vida que nem deu fome.

Ser desmemoriado podia ser a coisa mais linda de todas. Não é. Neurônios na cadeira do dragão.  Onde foi o almoço? Respondam, putos. Nada. Soro da verdade, choques elétricos. Exausta.
Mando chamar o detetive. Ele retorna com o veredicto.
Almoçou no mesmo lugar de sempre, a mesma comida de sempre e, no final, o mesmo café forte de sempre. Os neurônios, hematomas por todo o corpo, riem de você. Que trocou toda a fantasia do mundo por uma lembrança medíocre de um prato feito.

:: Escrito por Jô Hallack às 11h21