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 Já dei tudo. Espaço no coração, no armário, na sapateira.  Casa, comida , roupa lavada e ambiente 5 estrelas. E o mais importante: meu amor, sempre desenfreado. Já te dei lágrimas de sangue, te dediquei meus olhos revirados, declarações histéricas, tudo nessa vida.  Agora, nada mais. Nem um simples espaço no meu HD.

 

Os ex merecem caixas em cima do armário, com as cartas amarradas com um laço, com fotos que vão amarelando, nem isso você terá.   Nem um pouco de espaço de uploads. É o que eu penso, enquanto apago suas fotos na internet.

:: Escrito por Jô Hallack às 21h35
"E você caiu no papo dele?" Ou a sabedoria infinita dos amigos homens

Depois de muita paquera e alguns encontros, Um cara falou um monte de coisas, fez juras de amor e planos, Em seguida, ele agiu de um modo completamente esquisito. E deu tudo errado. Ponto.

Bem, caso clássico, não? Mas ficamos, eu, minhas amigas, nossos conhecimentos de psicanálise selvagem e nossa imaginação fértil. Construímos uma tese de mestrado para o comportamento do rapaz que incluía coisas como:

 

1-      Ele percebe que você no fundo tem desprezo pelo meio de trabalho dele. Ele não suporta a sua crítica em relação a uma coisa que ele acha o máximo. (tese da jô)

2-      Ele é auto-centrado, só consegue pensar em si mesmo. “Que mal contemporâneo”, comentou o Vitor a respeito do diagnóstico.

3-      Essa coisa de fazer muita declaração e achar que você é tudo dá nisso. Cuidado que uma hora ele vai estar te odiando. Amor e ódio andam juntos, você sabe (Luana)

4-      É tudo falta de amor de mãe, esses caras não foram amados suficientemente pelas mães (Bia, que usa essa teoria para todos os homens e mulheres).

5-      Ele não tem coragem de bancar o desejo dele. E quem não banca os próprios desejos não serve (teoria minha, aplicada a todos os homens e mulheres).

 

As teorias não foram só essas. Temos outras. Um verdadeiro tratado psicológico sobre o sujeito e o mal estar da sociedade contemporânea, que inclui o abuso das redes sociais, o mal casado pela indústria da moda para quem leva isso a sério, toda a teoria do desejo do Freud e por aí vai.

 

Até que eu contei a história em versão remix para um amigo homem. Ele me olhou rindo e disse:

 

_ _Ihhh. E você caiu no papo dele?

 

Simples assim. E ele resolveu o enigma. Obrigado, amigos homens, pela sabedoria. Obrigada, amigas mulheres, pela nossa capacidade infinita de invenção, que preenche o nosso tempo e nos dá temas para crônicas.

 

:: Escrito por 02 Neurônio às 21h32
Um pouquinho do livro

 

 

Esse era o prefácio que acabou não entrando no livro. Mas ele está tão incrível, que resolvemos publicar, afinal a opinião da Bia Abramo é muito importante e abalizada!


Prefácio (entre a sisudez e o ridículo)


Por Bia Abramo


É uma honra (mesmo), mas também um embaraço escrever este prefácio. A honra é dupla, de maneira que talvez supere o embaraço. Vamos a ela, então.

Dez anos atrás, numa conversa nos corredores da Folha, a Nina me pediu para escrever um texto para um fanzine que ela, a Jô e a Raq estavam fazendo. Era uma conversa de corredor no ambiente de trabalho, lembrem-se, daquelas em que se aproveita para falar o máximo de bobagens antes de voltar para a labuta, e a idéia da Nina era que eu escrevesse um texto chamado: “Eu agarro os homens”. Segundo a Nina, eu era uma mulher superior e moderna porque não ficava esperando a iniciativa masculina nas lides amorosas-sexuais. É claro que era um certo exagero da Nina (sobretudo no que diz respeito ao êxito do procedimento), mas topei, escrevi e tive a honra de ser publicada no primeiro exemplar do 02 Neurônio, na sua fase selvagem de fanzine à antiga, feito com tesoura e cola de verdade.

A segunda honra, claro, foi a de ser considerada ainda uma mulher superior e moderna a esta altura para escrever o prefácio do livro comemorativo dos 10 anos da holding “02 Neurônio”. Sim, porque nesses de anos o fanzine desdobrou-se em livros, programas de rádio, blogue, coluna no “Folhateen” etc. etc. Embora nenhuma delas tenha ficado rica com isso tudo, essa trajetória atesta o acerto de fazer um jornalismo de comportamento às avessas, a crônica anárquica das vicissitudes (aí, Nina, isso é o velho Freud) femininas dessa difícil transição do século XX para o XXI.

Espremidas entre as conquistas do feminismo e a permanência conservadora, num período em que a liberalização dos costumes – que de fato garantiu mais autonomia em todos os níveis para as mulheres – tem como contrapartida o esgarçamento cínico das relações, as mulheres se encontram em encruzilhadas existenciais, sexuais, amorosas, profissionais para as quais as respostas não são fáceis. Não temos e não queremos mais as velhas soluções – a submissão, a subordinação e o conformismo – e já vimos que as respostas do calor da hora do feminismo têm lá suas limitações. É preciso, a cada momento, formular novas respostas – e para tudo, desde o que fazer do cano furado a como ensinar ao filho como chamar os órgãos sexuais (eu aproveitei para adotar “pingolim”, que me soa mais divertido do que a média dos termos, e o meu Félix, Raq, criou por conta própria uma simpática “pixota”).

Nina, Jô e Raq, como todas nós, não sabem as respostas, mas as inventam e reinventam a partir de uma mistura infernal em que entram o humor, a inteligência, a atitude punk e, eu diria, a postura política. Diante do massacre fundamentalista da mídia feminina, que só sabe responder com normas aprisionantes e paradoxais (precisa emagrecer e precisa cozinhar bem, precisa ser linda e precisa trabalhar muito, precisa ser doce e precisa ser sexy, precisa ser independente e precisa ser compreensiva com os homens, precisa, sobretudo, consumir a revista para se consumir com tanta regra), a resistência e a crítica são mais do que necessárias.

Pode-se fazer crítica de muitos jeitos – as mulheres (não, ninguém aqui é mais garota ou menina, e isso é bom) de 02 Neurônio a fazem sendo astuciosamente questionadoras e desbragadamente ridículas (e isso também é bom). Daí meu embaraço – não tenho, como elas, a capacidade de rir tanto de mim mesma, e esse prefácio está saindo uma coisa sisuda, que vai afastar os leitores em vez de atraí-los. Melhor parar por aqui.

Até o aniversário de vinte anos, quando continuaremos sendo punks, gostando dos Smiths e tentando ser, como elas, cada vez mais ridículas.

 

:: Escrito por raq affonso às 19h08