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Pensamentos da madrugada

Tem gente que não fala, discorre. E tem gente que não vive, morre.

:: Escrito por Jô Hallack às 23h49
As Loucas de Pankow

O fim da nossa linha de metrô em Berlin chamava Pankow. Era simples. Só pegar o metro em direção a Pankow que logo estaríamos em casa. Pankow era só um ponto final. Uma estação. Um nome. Até que de manhã a Jô disse: “vamos a Pankow?”. A Dani deu força. Disse que tinha um parque lindo chamado Mayakowiski, que era onde os líderes da Alemanha Comunista moravam. Alguém precisa de mais do que um parque chamado, repito, Mayakowiski, para se convencer?

 

A cidade estava cheia de exposições, cheias de lojas baratas com pechinchas, de bares com punks lindos, de ruas com as pessoas mais bem vestidas no mundo. Mas a gente pegou o metrô para Pankow. Afinal, o que poderíamos perder? Era a nossa linha, qualquer coisa a gente voltava. Só uma voltinha para ver qual era.

 

Mas sabe o que acontece quando você sai do seu caminho de sempre e vai ver o que tem no fim da linha do metrô? Você corre o risco de se apaixonar. E foi assim que nasceu a dupla agora conhecida no bairro do extremo leste de Berlin como As Loucas de Pankow, duas mulheres que saíram andando pelo bairro gritando: “meu deus, que maravilha, olha ali, tem um museu de trash art, a gente tem que ver o que é isso”. “Meu deus, que lindo, olha aquela vitrine, parece Adeus, Lennin, acho que eu vou chorar”. As pessoas turistas nunca vão a Pankow.

 

Pankow é apenas o fim da U2, repito. E não, o muro de Berlin não caiu em Pankow. A globalização não chegou (e esse é provavelmente um dos motivos do nosso enamoramento pelo local) e, claro, ninguém fala inglês.  Mas apaixonada faz qualquer coisa, menos desistir. Por isso, nos comunicamos por gestos, já que obviamente não falamos alemão. E mágicas acontecem. Muitas. Por isso, encontramos uma senhorinha em um restaurante que disse que falava inglês, fez questão de traduzir o menu para a gente e disse que conheceu o Brasil quando tinha 18 anos, na época da guerraa.

 

Pronto. Estávamos completamente abduzidas por Pankow. Os amigos ligavam do Mitte (o bairro baladado de Berlin) procurando pela gente. Mas não. Estávamos amando muito aquele bairro e não poderíamos sair de lá. As Loucas de Pankow entraram em um supermercado só para ver “como era o supermercado daquele lugar”.  Demos de cara com um circo, decidimos que precisávamos ver o espetáculo de pessoas em cima de pôneis. Entramos escondidas no circo para dar uma olhada. Paramos pessoas na rua tentando descobrir que hora era o espetáculo. Entramos em lojas, claro. Fomos olhadas com cara de medo. Por que será?

 

Depois descobrimos que, além deles não estarem acostumados com turistas, tinham mesmo motivos para ter medo. Afinal, As Loucas de Pankow fizeram coisas como: gritar “olha, que lindo aquele urso amarelo na porta da loja, Jô, senta para eu tirar uma foto.” Ela sentou. O banco estava quebrado. Ou será que foi ela que quebrou o banco? Em todo caso, saímos correndo pelas ruas do bairro. Descobrimos um saldão de livros de arte e compramos coisas bizarras (destaque para o disco que a Jo achou, um verdadeiro achado, já que tinha a participação do Nick Cave. No Brasil ela descobriu que a tal preciosidade, que quase compramos para trazer de presente para vários amigos, era um áudio livro de Brecht em alemão. Gritávamos, “meu deus, essa rua chama Hermann Hesse”, “olha, tem uma avenida chamada Engels!” Tirávamos fotos agarradas nos postes das placas. Comprávamos croissant de 20 centavos. E devemos ter falado a palavra: “olha, olha, olha” umas cem vezes.

 

A noite já caía quando saímos de Pankow. Voltamos com raiva para o bairrinho badalado, já com o coração apertado de saudades.

 

Pankow, Pankow. Sempre te amaremos. E você, bairro querido, nunca mais será apenas o nome de uma estação final de metrô. E prometemos ir mais ver o que rola ali no fim da linha. Obrigado, Pankow, pela lição. (Nina Lemos)

 

:: Escrito por 02 Neurônio às 00h40
O diabo verde

Parecia um homem, também parecia um garoto, mas depois que eu tirei a roupa é que eu percebi. Minha Nossa Senhora, eu estava de frente para o diabo.  Ele mesmo, o chifrudo, o satanás, o belzebu. Só que dessa vez, adivinhem: era verde.  Eu estava me deitando com o diabo verde.   Era ele, sem dúvida,  tendo como cavalo o indefeso corpo de um menino de boa família.

Mais, não digo.
Só que saí pisando leve, com meus sapatinhos vermelhos.

:: Escrito por Jô Hallack às 19h48