O medo de ninguém ligar no dia do aniversário
Quem nasceu nos primeiros dias de janeiro, ou na finaleira de dezembro sabe bem do que estou falando: o medo de ninguém ligar no dia do aniversário. Além de carregar o peso nas costas de ser uma capricorniana, você faz anos numa época em que está todo mundo viajando. E quem está na cidade, está começando o ano, arrumando as coisas, botando ordem na casa. E não lembra do seu aniversário.
Fiasco maior só acontece quando você cisma de comemorar e fazer alguma coisa. Tenho lembranças de um almoço que minha organizou e que teve a palpitante presença de UMA pessoa. Imagina a situação, um calor abafado de verão carioca, você completando seus 13 anos (a pior idade que um adolescente pode ter), e uma enorme travessa de camarão com catupiry para sua amiga Inês comer. Muito triste.
Daí você cresce, entende que comemorar aniversário não vale à pena, principalmente depois dos 30 anos, mas as pessoas sempre perguntam: "E aí, você não vai fazer nada?". "Não". "Você não vai fazer nem um bolo?", a empregada insiste. "Não. "Mas eu vou fazer assim mesmo", ela decreta.
E lá vai você, 20 anos depois, comer um bolo com um convidado único. Pelo menos ele é seu filho e tem 3 anos.
Nos ares, e nua
- Por que compramos uma passagem para domingo de madrugada quando temos que trabalhar na segunda?
O amigo que encontrei no aeroporto está com problema de amnésia e eu explico. Compramos passagens para domingo de madrugada porque queríamos aproveitar o verão até o último minuto. Literalmente. O painel de controle dos Guararapes avisa: o vôo parte meia-noite. Recife para Porto Alegre, com escalas no Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, Brasília, Guapemirim, Vassouras, passando ainda por Cuba e Maceió.
Vôos noturnos. O único problema é a impossibilidade de usar óculos escuros, grandes óculos escuros, óculos escuros de Jackie O. que escondem os seus olhos vermelhos e marejados, olhos de despedidas. O avião acelera, adeus, adeus. E depois, desiste. O comandante avisa que temos um problema. Portas abertas, segundo o computador de bordo. Vamos ter que retornar para averiguações. Ensaio uma reclamação. Se tem uma coisa boa no caos aéreo é isso: temos assunto com os outros passageiros. Podemos abordar desconhecidos com um álibi. Primeiro algo clichê, como a dificuldade se se viajar no Brasil. Logo depois já estamos abrindo nosso coração, falando da família e das nossa fraquezas de saúde.
- Era só que faltava - digo, bufando.
- Pense bem, é melhor ter este tipo de problema antes da decolagem do que depois – retruca o 21F, uma espécie de Buda da aviação, enquanto a 21D pede que eu tire uma fotografia.
Depois de um entra e sai da avião, finalmente decolamos. Eu desmaio de sono. E acordo na Guanabara, com torcicolo e os peitos de fora, resultado de um top moderno meio tomara que caia com uma amarração fashion. O Buda da 21F está dormindo, por sorte. Mas a moça do 21D olha para aquela cena de nudismo involuntário e esboça um sorriso solidário (e irônico) diante de meus mamilos eretos com o ar condicionado. Uma das minhas havaianas onçadas desapareceu na aterrisagem. Tenho sono e resolvo sair do avião descalça, agora já com roupas. Até que o colega da 19F desaparece sob as cadeiras e volta triunfante com meu chinelo.
Na esteiras das bagagens, reencontro meu amigo.
- Bom 2008! – diz ele
Eu acho um exagero. Por enquanto, eu só quero uma boa segunda-feira.
E sei que ela não virá.