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Pelo engarrafamento eu vejo o mundo
Parados no sinal.
- Olha só quanta mulher em volta.
E olhei. O engarrafamento de sempre em Botafogo.
Ele emendou o raciocínio
- Ficam só atrapalhando. Não tem o que fazer. Ficam saracoteando por ai, atrapalhando a gente que tem que trabalhar.
Movida, talvez, por um certa falta de inteligência, resolvi argumentar
- As estatísticas mostram que os homens se envolvem mais em acidentes de trânsito do que as mulheres.
- Mas é justamente por isso. Elas atrapalham o trânsito e eles batem. Mulheres são umas desocupadas. Já que não trabalham, tinham que ficar em casa.

Tive vontade de jogar meu relatório imaginário do IBGE no colo do motorista de táxi, mas respirei fundo. “É um senhor de idade, de outros tempos”, argumentavam alguns dos meus neurônios. A facção rebelde, este dia, não se manifestou como de costume. Até meus neurônios preferidos estavam descrentes da eletricidade. Mundinho machista. Não pelo comentário daquele senhorzinho rabugento, que poderia até ser folclórico, para a gente rir depois em mesa de bar. São machistas aqueles homens que nos freqüentam.

O silêncio no carro, apenas o barulho do trânsito. Ele tentou quebrar o gelo.
- Mesmo assim mulher é a melhor coisa do mundo. Conhece aquele samba do Jamelão? “Samba me eleva a alma, a mulher me tira a calma e a bebida me faz esquecer…”

Se fosse outro dia, talvez eu achasse aquilo lindo. O taxista velha-guarda seguiu cantando outros sambas mas, naquela quinta-feira, a belezura da vida tinha tirado férias. Que mundinho merda.

:: Escrito por Jô Hallack às 09h31
Eu vou entrar pra contravenção
Abri a janela do quarto para os macacos e foi então que ela entrou, No começo, tinha o corpo de capivara, mas eu a reconheci ainda assim e aí o corpo de capivara sumiu e ela se transformou no que era: uma onça, uma onça mesmo,no meio do quarto. Eu tinha medo, mas deixava ela chegar perto de mim, eu queria tirar uma foto, ter uma prova, uma recordação, era uma espécie de medo maravilhado que nem quando a gente percebe que está a ponto de se apaixonar por alguém. De repente, eu estava atrasada para a reunião de dez e meia, fui andando até o carro. Abri a porta mas, antes de mim, dois urubus entraram no Fusca. Eles não entraram voando, não. Só deram um pulinho, do chão para a cadeira. Merda, esses urubus vão me atrasar, eu pensei. Então acordei e ouvi o barulho do café borbulhando na cozinha.

Se fosse terça-feira eu ia esperar até duas e vinte e, então, deitada no divã olhando, como sempre, para os prédios da Visconde de Pirajá, eu diria:
- Eu hoje sonhei com uma onça. E também com os dois urubus. E portas e janela que eu abria. O que será que isso significa?
E ele, mais esfinge do que nunca:
- O que você acha que significa?

Mas era quarta, nove e trinta e cinco da manhã, eu já quase atrasada para a reunião de dez e meia. E resolvi jogar no bicho, na banca que tem no caminho do escritório. Pela primeira vez na vida. Totalmente inexperiente, me aproximei da vendedora de incensos que fica na esquina do escritório, entre o homem que conserta cadeiras e o vendedor de super-bonder e pilha.
- Me ajuda a jogar?
- Foi sonho?
- Foi
- Sonho tem validade de três dias – ela disse, com muita autoridade.

Dez e vinte e três e eu ali, parada na rua, ouvindo essa revelação. Que sonhos têm validade! E de três dias, olha só, que maraviha máxima!
- E foi o que?
- Urubu e onça.
- Urubu não tem. Nem onça.

E agora? A pensar: Deus foi me dar um palpite, mas deu interferência.
- Tem o que?
Ela começou a desfilar uma verdaderia arca de Nóe. Resolvi apostar no tigre (praticamente uma espécie de onça, só que em vez de bolinhas vem em estampa de listras) e também no gavião, no lugar do par de urubus. Daí a vendedora de incensos segurou no meu braço e disse:
- Manda cercar tudo no milhar.

Dez e vinte e nove, e eu, uma virgem no jogo do bicho, olhei para o apontador que me vê passar todo dia por ali e, meio nervosa, fiz exatamente o que ela mandou. O melhor de tudo foi o negócio de cercar no milhar. Pensei que ia me dar uma moral, mas ele só observou meu blefe com tédio, rabiscou uns números num papel com a assinatura e um carimbo escrito “Unibanca”. Esse é o nome da banca do bicho da esquina. Uma genialidade. E ainda acham que Piauí é um bom nome para revista!

Voltei lá três e meia, me sentindo a mais popular das criaturas ao conferir resultado do bicho no poste. Deu pavão. Sonhos são tontices, devaneios em lugares impróprios, para que a gente ache que a vida vai ser uma coisa que raramente é. Sonhos são contravenção, assim como o amor desmedido que é desmedido senão não seria amor. Sonhos não servem pra nada, só pra tentar ganhar uns trocados.
:: Escrito por Jô Hallack às 23h38
What she said

“Eu não consigo me imaginar com 36 anos”, me disse uma vez a menina de 20 e poucos. Bem, eu acho que ela devia começar a imaginar logo, porque o tempo passa. E um dia todo mundo vai ter 36 anos (o que não é muito). E se tiver a sorte de não morrer antes.

Bem, isso porque só agora eu tive vontade de falar uma coisa para essa menina. O que ela não sabe é que um fenômeno acontece com algumas pessoas. E, no meu caso e dos amigos mais parecidos comigo, é fato. O tempo passa e a gente fica mais punk, menina de 20 e poucos anos. Cada vez a gente acredita mais no lema “faça você mesmo, mesmo se você não souber fazer direito.” E a gente fica um pouco hippie também. Outro dia mesmo eu falava com a Jô que a nossa vida devia chamar: “fugindo de trabalhos chatos que pagam bem.”

E aí, menina de 20 e poucos anos que não se imagina com 36, você ainda acha que é tão ruim assim?

(Nina Lemos)

:: Escrito por 02 Neurônio às 18h36
Sabedoria
O que ele ensinou a ela foi a diferença entre o xote e forró. A cabecear uma bola e andar de bicicleta na ladeira. Ela ensinou a ele a usar palmilha se o sapato é largo e que é só jogar aquele cubinho na água para fazer caldo de carne instantâneo. Que listra em pé emagrece e que deitada engorda. Ela queria comemorar o dia dos mortos. Ele só falava em carnaval. Detalhes tão pequenos de nós dois são coisas muito grandes pra esquecer. E a toda hora vão estar presentes, você vai ver.
:: Escrito por Jô Hallack às 11h05