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Tuvalu, Homem, de 20 a 25 anos
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Ah, poder passar de ano
Há quanto tempo você não passa de ano? No meu caso, uns 15 anos. Pois bem. Aconteceu. Voltei a estudar. Inglês, no caso. E nesse dia frio de junho_ com um sentimento de regressão na boca (e uma pitada de melancolia)_ aviso que eu, 30 e muitos anos, passei de ano. Assim, no fim de junho. Claro, vocês sabem, depois que a gente cresce, não passa mais de ano. Os anos que passam.
Pois bem. Fiz a prova na segunda chamada, de tarde. Entrar em uma escola de tarde já fez eu me sentir regredida, mas fui em frente. Tudo isso misturado com uma gripe poderia me fazer chorar, mas não fez. Peguei um café na máquina, meu lápis e minha borracha (há quanto tempo eu não tinha uma borracha?) e sentei na sala rodeada por um menino de 11 anos e uma garota de uns 14. Fiz a prova. Achei bem fácil.
Sentei do lado de fora para esperar o resultado e, claro, eu não estava nervosa. Ou vai ver eu estava nervosa, mas não com o resultado da prova, e sim com as com coisas da vida: um trabalho importante que precisa ser concluído, um rapaz novo que apareceu, e aquelas coisas sem nome que a gente chama de angústia. Até que uma mãe chegou. Uma moça mais velha que eu e realmente nervosa. Com medo do filho não passar. Fiquei ali consolando a mãe e falando que os adolescentes são todos iguais (coisa que não acho, claro) só para me sentir adulta e inserida na sociedade do curso de inglês. "Você passou de ano?", ela me pergunta. "Você está nervosa?", ela pergunta. Explico que não, não estou com medo.
E foi então que percebi que em breve poderia passar de ano. Ou não.
O filho da moça nervosa saiu da sala junto com a professora, que caminhou em minha direção. Ela me disse: "olha, você foi muito bem na prova, apesar de ter faltado muito. Sua média ficou em 8.5." "Eu passei de ano!", me vi exclamando. A mãe nervosa não se conteve e me beijou. Juro. A desconhecida me deu um beijo no rosto. E o meu colega de 11 anos, que nunca tinha me visto na vida, me olhou admirado e disse: "uau". A regressão foi tão grande que liguei para a minha mãe contando que passei de ano e ganhei parabéns.
Voltei para casa. Lembrei que não passei de ano porra nenhuma. A sensação maravilhosa de passar de ano acaba quando a gente sai da escola. E isso não é exatamente ruim. Pelo menos eu não tenho uma mãe nervosa me esperando do lado de fora da prova. Ah, poder ficar feliz por passar de ano! (Nina Lemos)
:: Escrito por 02 Neurônio às 00h01

Mulheres que dizem sim
"Quer escrever um texto e ganhar um centavo?" Sim!
"A gente pode passar esse para outra pessoa, mas como ela é sua amiga, se
você quiser fazer,olha, só se você quiser..." Sim!
"Você consegue entregar essa matéria em quatro dias?" Sim!
"Acabar um livro em dois meses? Sim!
"Você consegue dizer não?" Não!
Deve ser trauma por ter sido criada no Brasil da hiper inflaçáo e ser adolescente na época do Plano Collor. Ou vai ver o problema vem mais do passado
ainda. Como nunca me chamavam na hora de formar os times de Queimada, fiquei assim. Se me chamam, eu me sinto inicialmente na obrigação de falar sim. É como se eu fosse um ventríloco programado para dizer: sim, sim, sim, sim.
"Quer se ferrar?"
"Sim"
E,claro,eu tenho várias desculpas para o meu sim auto-destrutivo. Eu preciso de dinheiro, eu gosto do que eu faço, preciso escrever, preciso pagar as contas, tenho que aproveitar que agora tem trabalho porque um dia a fonte vai secar (delírio de ruína!).
Resultado. Sáo mais de dez da noite e estou com tinta no cabelo. Cheguei no fundo do poço da falta de tempo.
"Você quer ficar com as raízes do cabelo brancas?"
Náooo!
"Você acha chique quem fala que trabalha muito?"
"Não!Eu acho cafona!
Pronto. Virei uma pessoa cafona. Era o que me faltava.
(Nina Lemos)
:: Escrito por 02 Neurônio às 22h07

Fazendo a Nouvelle Vague

Às vezes eu fico muito irritada com o mundo. É raro, mas acontece.Acordo e acho tudo uó. Vou lá, vivo a vida, e continuo achando tudo uó. Chega de noite e acho tudo ainda mais chato e irritante do que achava de manhã. Não tem um motivo. É só o mundo que ficou uó e as pessoas (tirando umas quatro) que ficaram chatas.
Normal. No dia seguinte passa. Meus amigos também acordam irritados com o mundo. É uma TPM existencial, ou astral,vá saber. Só que eles saem, bebem e tomam otras cositas por aí. Beijam o chão, fazem merda, brigam com gente.
Eu não. Rejeito todos os programas e fico em casa fazendo a Nouvelle Vague. Ouço alguma música triste, fumo e tomo café. E choro. Pencas. Ao invés de sair e tocar o terror nos botecos da Augusta, fico em casa chorando.
Saco. E nem dá para fazer a Nouvelle Vague com algum glamour nesse calor. Resta ficar em casa e escrever, de calcinha e sutiã. Cabelo despenteado. Mas unhas impecavelmente pintadas de vermelho (até as dos pés).
PS. Ah, sim, como meu amigo lembrou, estou escrevendo meu primeiro romance e quando estou triste fico em casa com "ele". Nada mais Nouvelle.
:: Escrito por 02 Neurônio às 23h28
Sundae do Mac Donald´s
Às vezes a vida fica meio tediosa. Muita fisioterapia, muito trânsito, muito trabalho no fim de semana. Pouco tempo até pra pensar em coisas legais pra fazer. Ou pra curtir as poucas coisas legais que ainda insistem em aparecer.
Daí você vai almoçar e comete o erro. Primeiro, almoçar no Mac Donald´s. Mas para agravar, o terrível erro - ou talvez para otimizar o erro - você resolve pedir um sundae de chocolate. Quer dizer, um TOP SUNDAE de chocolate. Com farofa, calda de chocolate e dois biscoitos. Mais ou menos umas 10 mil calorias.
Mas a felicidade pós-top-sundae é instantânea. Todos os infortúnios, cronogramas e compromissos maletas desaparacem. Porque tem dias, em que tudo que a gente precisa é de um sundae.
:: Escrito por raq affonso às 13h48
Ainda existe fidelidade?
Encontro uma amiga no restaurante. Ela conta triste sobre o fim do relacionamento, de alguns anos, por causa de uma infidelidade. Ela namora meninas.
Vejo um programa de TV. Meninos de 20 anos se divertem numa casa de férias. Um deles, que tem uma namorada, conta pra ela que ficou com algumas outras, mas que no fundo, gosta dela. Ela retribui com um beijo.
Leio uma revista na sala de espera do médico. Nosso amigo e colunista Xico Sá, aconselha uma leitora: "todos os homens traem. pelo menos você não está na ignorância de achar que seu marido é fiel".
Daí a pergunta que se quer calar: será que ainda existe fidelidade? Ou isso é uma invenção do passado, que caiu em desuso nos anos 90? Não, espero que não...
:: Escrito por raq affonso às 21h56

Crise clichê
Saio do trabalho e lembro que preciso ir ao supermercado. Faço algumas compras. Volto para casa. Ligo a TV. E me toco. Putz, que vida mais ordinária! Tá, poderia ser pior. Sempre poderia ser pior. Mas Fernando Pessoa tem razão: “não se pode exigir, almas honestas com hora para comer e para dormir”. Que vidinha besta, Nina Lemos.
Sim, sim, sim. É um sentimento normal de volta de férias, repito para mim mesma com insistência. E continuo meu projeto de auto-ajuda olhando em volta e pensando: “todos eles devem sentir a mesma coisa, todos.”
E desde quando saber que todo mundo sente a mesma coisa conforta? Sei lá. Desde o dia em que a minha analista me disse que todo mundo se sentia oprimido no saguão do Aeroporto de Congonhas no meio do caos aéreo. Desde quando eu percebi o quanto eu era narcisista.
Mas saber disso tudo não adianta nada (e quem disse que eu sei? Vai ver todo mundo está feliz da vida na firma, na rua, na fila do supermercado). Não importa. Sou o clichê da humanidade. Uma pessoa em crise porque voltou de férias. Pareço a personagem de um sitcom. Daqueles bem sem graça. (Nina Lemos)
:: Escrito por 02 Neurônio às 23h42

A idílica solidão nos cafés
Estou sentada sozinha em um café. É noite de domingo. Estou quietinha com o meu computador. Dois caras aqui do lado até puxaram assunto, mas um papo educado. Perguntaram que língua eu falava com gentileza.
Uma moça sozinha com o seu computador aqui em um bar de noite não é uma coisa estranha, pelo contrário. Sim, estou de férias em Berlin (e eu realmente mereço isso).
E agora, tranqüila com o meu café e o meu cigarro, comecei a pensar: por que em São Paulo ou no Rio de Janeiro a gente não tem o hábito de fazer a mesma coisa, heim? Por que não sentamos sozinhas para escrever, fumar, pensar na vida?
Eu não faço isso porque sou uma babaca. Explico: eu tenho medo de que as pessoas me encontrem e pensem: “tadinha da Nina, ela é tão solitária.” Sim, um narcisismo ridículo. Mas vocês também são assim. Ou não?.
Só que a culpa não é só minha. Outro dia esperei os amigos saírem de um show por horas no mesmo café. Era sexta-feira depois das onze e o bar estava cheio. Só que ninguém veio me perturbar. Não passou nenhum playboy perguntando se eu queria companhia. E também não me olharam estranho.
Espero que a gente possa fazer isso um dia no Brasil, que é a nossa casa. Que a gente possa sentar só em lugares do caralho.E que gente não tenha que lidar com olhares de julgamento dos outros. E nem da gente.
(Nina Lemos)
:: Escrito por 02 Neurônio às 17h53

A mulher mais livre e independente que ele conhece
_ Você é a mulher mais independente e livre que eu conheço
Meu amigo disse isso e eu concordei. Sim, eu vou lá e resolvo, pensei. Depois que demiti o Jim Jarmush, o Kafka decidiu roteirizar a minha vida. E o que aconteceu? Depois de parar no Serasa com um cheque de R$17, descubro que é impossível tirar segunda via de passaporte hoje no Brasil.
Mas não pra mim, porque eu sou a mulher mais independente e livre que ele conhece. Então, vou resolver o problema do passaporte que me permitirá fazer uma viagem com o dinheiro que É MEU, sozinha, para o lugar que EU ESCOLHI, para ficar na hospedada na casa de pessoas que EU ADORO. Nenhuma interferência. Ninguém pegando no meu pé.
Pego sozinha um táxi para Barueri, porque, claro, eu não preciso de gente me escoltando. Só de uns amigos para desabafar no telefone. Eu não sou aquele tipo de mulher que liga para um ex e pede para ele ir com ela comprar um carro porque ela não sabe fazer isso sozinha. Não sou assim. Mesmo. E combino um preço com o taxista. E resolvo TUDO SOZINHA.
Até que entro na PF para tirar o maldito passaporte, lá em Alphaville, lá na puta que o pariu, a léguas e léguas do meu lar e da minha segurança e do meu computador. E a mulher diz: “O seu RG está com uma parte aberta, você vai ter que ir até o Poupa Tempo tirar outro”. Escuta, eu já estava na puta que o pariu e teria que voltar mais léguas e léguas. E pegar mais uma fila gigantesca. E depois pegar outro táxi e gastar a maior grana para voltar até a puta que o pariu. O problema que eu resolveria sozinha de repente virou uma coisa sem solução.
E o que a mulher mais livre e independente que ele conhece fez nessa hora? Chorou. Chorou muito. E ligou para a mãe chorando. E passou o resto do dia chorando. E de noite ligou para um ex.
Detalhe que talvez faça a diferença. Eu liguei para o ex, perguntei se estava tudo bem, chamei para um café um dia desses mas não pedi ajuda. Nem contei a saga que conto aqui.
Se eu não fosse a mulher mais livre e independente que ele conhece, teria pedido ajuda, assim como as mulheres que ligam para ex e pedem pra ele comprar um carro com ela. Mas eu não sou assim
E às vezes acho isso uma merda.
(Por Nina Lemos)
:: Escrito por 02 Neurônio às 12h11

Sugestões para atravessar um inferno astral
Inferno astral, ou fase de revisão anual, como diz a amiga e gurua Bárbara Abramo.Em outras palavras: a época anual da loucura. Pelo menos essa tem data marcada. E desculpa. Tipo TPM. Se você estiver achando que enlouqueceu, culpe o inferno astral! O mesmo vale para lágrimas fora de hora e outros sintomas.
Dicas de sobrevivência durante um inferno astral:
_ Não sair de casa, digo, de noite, sem vontade. Você vai odiar tudo e voltar para casa em 5 minutos. Se sentindo péssima.
_ Sair de casa de noite, pelo menos quando pintar um programa onde exista motivo real para ir, tipo aniversário de amigo, show de banda de amigo e outras coisas que incluem a palavra amigo.
_ Ler um livro foda. Atravesso o meu inferno particular lendo “O mal estar da civilização”, do Sigmund Freud (“aquele velho louco e cheirador”). Já é um dos melhores livros da minha vida. E ainda nem acabei.
_Boa trilha sonora, sempre. Fique de ipod até na hora de fazer xixi (barra os pensamentos negativos, ou deixa os pensamentos negativos mais bonitos).
_ E programe um aniversário incrível. A hora em que o inferno passar...
_Não tome nenhuma decisão séria. Tipo pedir demissão de emprego ou se declarar para alguém. Espere você saber exatamente o que está sentindo...
_Baixe uma música chamada "Sobre as Pernas", do Akira S, pérola dos anos 80 que diz: "o inferno tem mil entradas, alguma são mais conhecidas, já outras são mais disfarçadas". Eu vou procurar e baixar agora.
(Nina Lemos)
:: Escrito por 02 Neurônio às 19h31

A drenagem e a greve
9h30 da manhã. Você está indo para a drenagem. Drenagem e máscara de lama miraculosa, que reduz sua pança na hora. Você está super contando esse resultado imediato para diminuir uns centímetros. Dai, quando você se aproxima do prédio da massagista percebe algo de estranho: carros de som, pessoas aglomeradas gritando. Uma greve! Interrompendo seu caminho da drenagem!
Os metalúrgicos querem aumento. Um aumento real, eles gritam. E você parada no trânsito. Você sem conseguir vaga. E sua drenagem indo embora...quando você finalmente consegue parar, se dá conta que vai ter que passar por 8 mil metalúrgicos em greve para chegar até a entrada no prédio! É muita peruice para uma pessoa só. Você quase fica com ódio dos grevistas, mas rapidamente consegue passar entre os companheiros.
Na drenagem, uma outra mulher comenta: "Democracia demais dá nisso!". Você fica culpada por não estar lá embaixo com os grevistas, pedindo 20% de aumento.
Daí se lembra da última manisfestação que participou, há mais de uma década. Era a favor da descriminização do aborto, na praia de ipanema. Umas feministas gritavam e pediam assinaturas para mandar para o congresso. Um carro de som tocava músicas. Você queria impressionar um pretê. Resolveu pedir para o carro de som tocar uma fitinha que ele tinha feito pra você. Falou pras feministas que era músicas de protestos de mulheres. Mesmo sendo músicas de amor.
Velhos tempos em que você era politizada. E não precisava fazer drenagem.
:: Escrito por raq affonso às 21h24

A Dor
Domingo passado eu estava cheia de problemas. Aqueles de sempre. Crise existencial, crise criativa. Eu achava que precisava de um bom amor, tinha que escrever um romance e arrumar várias coisas na minha vida. Até que ela veio. A Dor. Assim, no meio do almoço-jantar de domingo.
Era para passar. Mas não passou. Fui tomada por Ela, a terrível dor nas costas. E todos os meus problemas desapareceram. De repente, só existia um: me curar daquilo e, claro, descobrir o que aquilo era.
Uma crise de dor nas costas é uma espécie de Caminho de Santiago da Compostela. Você não pensa em mais nada. Só em sobreviver e nela, A Dor. Só que a peregrinação não foi feita por caminhos bonitos da Espanha, mas por Pronto Socorro, Pronto Socorro de novo, só que ortopédico, fisioterapia e, milagre, acupuntura.
Uma semana só pensando NA DOR. Uma semana onde o mais importante era a minha bolsa de água quente em formato de coração. Até que depois da acupuntura e das bombas ela começou a ser controlada.
E agora, que consigo ficar sentada, sinto que os problemas do domingo passado estão se apoderando de novo da minha alma. Todos aquelas pequenos problemas ridículos.
Por que que a gente é assim?
(Por Nina Lemos)
:: Escrito por 02 Neurônio às 16h51

Casando depois dos 30
Vendo vestido de noiva. R$500,00. Tratar com Sheila.
O anúncio no jornal do corredor da firma não chamaria atenção de fosse visto há 10 anos. Mas agora, aos 34, o casamento não só meu mas de mais duas amigas fez o tema casamento ficar presente. Todas com 34 anos. Três casamentos, cada um num mês. De pessoas que já tinham se "casado" antes e nunca quiseram fazer nenhum tipo de cerimônia.
Caretice? Carência? Maluquice? Regressão?
Daí você pensa: mas por que agora? Depois que todas as ilusões com o amor romântico já tinham acabado, inclusive a crença no próprio casamento em si? Por que não dá primeira vez, no auge dos seus 20 e poucos anos?
Primeiro, porque no outro casamento, nem você nem o ex pensavam nesse tipo de coisa. Para se ter um casamento, seja ele na igreja, no salão de festas ou no campo, algum dos dois têm que ter a idéia. E o outro vai no embalo.
Depois, talvez justamente por ser o segundo, você saiba exatamente o que quer. E querer um compromisso é coisa rara, nas pessoas que já se decepcionaram com o tal amor.
E quando você resolve que quer, acha que vale à pena até registrar em cartório. Com presença de testemunhas e tudo.
:: Escrito por raq affonso às 14h53

A terceirização do amor
A teoria é de um amigo. Nada como não depositar tudo em cima de uma pessoa só. O bom mesmo é terceirizar o amor e ter vários prestadores de serviço que funcionem em áreas distintas de sua vida. Um é aquele com quem a conversa é a melhor do mundo (o que completa as suas frases), outro é aquele com quem você dorme abraçado (e não necessariamente transa) e tem aquele que é o com quem você transa (e não necessariamente dorme abraçado). "Pedir tudo para alguém, coitado, é colocar muita responsabilidade no ombro da pessoa", concorda outro amigo.
Faz sentido. E tenho, sim, alguns serviços terceirizados (é só modo de falar, não, eu não trato seres humanos que eu amo de maneira fria). Mas será que funciona na prática? Tem dias que sim, tem dias que não. Porque é só a gente cruzar com alguém incrivelmente fofo para pensar em deixar de terceirizar. Contratar. E ainda dar carteira assinada, décimo terceiro e férias. Fora o serviço médico, claro.
(Nina Lemos)
:: Escrito por 02 Neurônio às 22h34
Barriguinha de vestido
- Ai, tô barriguda! Não tá bom esse vestido.
- Imagina, tá ótimo.
- Olha só o barrigão!
- Isso é barriguinha de vestido. Toda mulher tem.
E você ouve uma explicação sobre a tal "barriguinha de vestido", uma mini-pança que toda mulher fica quando bota um vestido justo. Que não é pra encanar, que você tá linda e blá, blá, blá. Você acredita e sai toda faceira, com seu vestido e sua barriga de vestido.
No dia seguinte, você vai na depilação.
- Você está grávida?, pergunta a depiladora.
:: Escrito por raq affonso às 15h40

A arte de cair fora
Tem vezes em que a gente precisa cair fora."A Retirada", aquele hexagrama do I-Ching. “Quando não resta nada onde deva ir, ele volta”. Nada como cair fora civilizadamente, educadamente, do jeito mais ok que a situação permite.
Cair fora assim é quase um milagre. Mas tem vezes em que a gente precisa cair fora, não adianta. E os amigos dão parabéns: hey, chica, você fez a coisa certa. Jarvis cantando “don’t let him waste your time. Go, go, go!”
Tem vezes em que a gente precisa cair fora. Até da própria casa. Até da própria cidade. Até da própria vida. A saída é o aeroporto. E tem vezes em que a gente precisa tanto cair fora que enfrenta o caos aéreo estoicamente ouvindo Smiths no fone de ouvido. A gente precisa cair fora. E passar uma hora e meia sentada no meio de dois homens de preto só para mudar de ares, porque não basta cair fora da situação por telefone, já disse, é preciso sair um pouco da própria vida também.
Aí, quando você vê, está estoicamente viva, sobrevivente de uma confusão bem grande, firme, digna. E carente. E entediada.
Ter que cair fora é uma merda.
(Nina Lemos)
:: Escrito por 02 Neurônio às 22h27
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